sábado, 13 de outubro de 2012

BALDEAÇÃO


BALDEAÇÃO
O cansaço havia me consumido.
As forças chegaram ao seu final.
Estava sem energias,  já caído.
faltava um acerto, um golpe fatal.


O fim da luz e da linha  a frente
Como único passageiro da lotação
Era um caco de gente, indigente
Sem transbordo ou arrumação


Faltava encontrar um ponto,
que se perdeu do comboio.
Meio ébrio, meio tonto.
Separar o trigo do joio.


Rever os caminhos trafegados.
Me embrenhar na  baldeação.
Bem-aventurar os meus perdoados,
Ajoelhar a quem quero perdão.


Eu e eu, pálido, frente comigo.
Querendo encontrar a norma.
Num caminho bifurcado.
Órfão na plataforma.


Erraram na hora de fazer a triagem.
alfândega sem revista.
Não cheguei a outra margem.
Meu caminho era sem pista.

NO SINAL


 
NO SINAL
 

As crianças pedem na janela do carro.
No Sinal.

 
Mendigos.
deficientes.

carentes.

 
Malabares com trouxinhas de pó.

Contribuem com a sujeira.
e eu com a moeda.


A culpa é minha.
Pecado meu.

O dinheiro é meu

 
alimento o vício.
O sujo.

O esgoto.

 
O Parlamento sofre
por ter que cagar

da mesma merda

e feder com eles.

 
Restamos nós, analfabetos

Acreditarem que Deus continua escrevendo

certo por linhas certas.

O certo pode estar no errado.

AMÉRICO


AMÉRICO

1995 estava quase acabando quando conheci o Américo.

Minha intuição me disse, no momento em que fomos apresentados, que estava diante da excelência em pessoa. Trabalharíamos juntos num projeto.

Uma bela figura, estilo germânico, de fala mansa e Justo. Ensinava e praticava a justiça nos seus mínimos detalhes.

Bem estruturado em todos os sentidos. Uma bela família que era enaltecida todos os dias.

Cristão. Desportista. Nunca fumou ou bebeu.

Em momentos de descontração ele me sugeria filmes, livros, falava sobre arte de viver, de liberdade.

Me ensinou a preparar sardinhas na brasa e tirava, de um potinho que carregava no bolso, um cravo-da-índia pra mascar.

Eu prestava atenção em cada palavra sua e me esforçava pra absorvê-las.

Tudo estava devidamente calculado para quando chegasse o seu aniversário de 49 anos. 35 deles trabalhados.

A aposentadoria tão desejada. A formatura em Direito.  O carro dos sonhos

O trabalho social (Américo queria dar aulas pra gente grande, desde que não fosse remunerado. Seu alvo seriam os cortadores de cana)

Seria tudo perfeito.

Mas Deus tinha outros planos para Américo e o chamou num dia  ensolarado.

Américo faleceu em 20 de maio de 1996.

Infartado. entrou andando dentro do hospital. Apresentou o cartão do plano de saúde e entrou num enorme corredor, como se estivesse ciente do dever cumprido. 

Não se despediu de ninguém.

Foi na paz.  Sereno. Elevado, pra Eternidade.

 

Um dia quero reencontrá-lo.

O Américo Laerte Bigatão está? To precisando muito falar...

JOVENS TARDE DE DOMINGO


JOVENS TARDE DE DOMINGO


Minhas tardes de domingo já foram muito diferentes
Trocava o esconde-esconde, pique-bandeira, pega-pega,

E muitas vezes, abandonava as aulas de catecismo,

E quebrava todo o marasmo do lugar ao subir a serra,

Na intenção de ficar, literalmente, mais perto de Deus.

 
Era uma bela montanha,
bem próximo do lugar onde morava.
 

Caminhava em espiral pra não me cansar muito.
Lá em cima eu era amigo do Rei.

Visão infinita, quase continental

Imaginação fértil, no limite

 
Meu momento mais introspecto,
exercitava toda a minha eloquência.

 
Rezava Ave-Marias e Pais- nossos.
cantava   hinos de louvor.

agradecia,

pedia,

Implorava.

 
Imaginava toda tristeza descendo a ribanceira
e se chocando com um tronco enorme bem no pé do morro

Apoteóticamente, via a felicidade descendo do céu

em forma de luz e e recobria todo o meu corpo.


O moleque voltava de lá
todo rejuvenescido.

voltava homem.

Voltava forte.


O tempo passou.
A Acrofobia tomou conta de mim



Indeléveis lembranças.

Hoje revendo meu tempo de criança com olhos de adulto,

descobri que a maior ingenuidade minha

era desconhecer que Ele estava ali

ao meu lado durante todo o tempo.


Não tinha necessidade de subir o morro.

MARIA DO POSTINHO


MARIA DO POSTINHO

Há muito Maria frequentava
o Postinho de Saúde
do Bairro.

A Dra. Cíntia
única Clínica Geral que atendia
não sabia mais
o que fazer,
o que dizer,
o que pedir.

Para ela
Maria era a pessoa mais saudável
dentre todas as mulheres do lugar.

Tudo já havia sido feito,
Exames,
Diagnósticos,
Radiografias.

Sua mente criava sintomas
Inventava doenças.

Certa vez
Médica e paciente resolveram conversar.

Maria foi embora com a receita médica
com a seguinte prescrição:

Praticar a fé todos os dias.
Caridade e Igualdade.
Agradecer sempre.

Maria nunca mais voltou ao Postinho.
O tempo dela ficou curto demais.
Ela está nacionalmente conhecida
pelo seu testemunho
de como voltou a viver.

MINHAS MADRUGADAS


MINHAS MADRUGADAS

 

 

Minhas madrugadas não são mais as mesmas.

Definitivamente.

Elas se transformaram em verdadeiras aventuras.

 

Nas madrugadas de antes retrabalhava

ruminando o dia.

O diretor chato.

O estagiário trapalhão.

Ofícios.

Valor de x.

 

Insônias

Decepções

Problemas

 

Tudo se agiganta,

na madrugada mal dormida.

 

Minhas madrugadas não são mais as mesmas.

Se transformaram em puro prazer.

Praias paradisíacas.

Viagens pelo mundo.

Mulheres maravilhosas.

Sem filas e caos aéreo

 

Me dá calafrios antes de ir para a cama.

 

Nunca sei pra onde irei.

Que lugares visitarei?

Com qual ou quantas mulheres terei

no meu harém particular?

Qual será a aventura desta noite?     

 

Minhas madrugadas não são mais as mesmas.

Aprendi a sonhar.

MUDANÇA DE HÁBITO


Mudança de hábito
O medo da morte
o tédio, a solidão,
me chamaram para mudar.

Descontaminei.
Recodifiquei.
Reprogramei.

Mudei crenças.
Curei micoses.
Evitei o dopping.

Deixei de ser molambo
escambo,
moeda de troca.

Apostei na linguistica.
na lojísitca.
Me apaixonei.

O insignificante,
o pedantismo,
deixei pra lá.

Vejo as cores do arco-íris.
Olho nos olhos.
vejo mais rostos,
e menos traseiros.

Abandonei metáforas.
Vou direto ao ponto.
De A a Z.

Adubei a vida.
Reguei a alma.
Asseei o espírito.

Meu NÃO tem mais eco.
E de repente
um foda-se!

Saí de cima do muro.
Eureka
Eu me achei.
Agora vivo.

VOCÊ QUE VEM VINDO


Você que vem vindo
Nem me incomodo muito
com o quando você virá...
eu tenho todo o tempo.
 
Mas me atormenta bastante
essa incerteza
de como você será...

Me pego a descrevê-la.

Um rosto de princesa.
Um corpo de deusa.

Por várias vezes troquei
A cor dos teu olhos
pra combinar com o vestido.

Já te fiz loura amorenada,
morena acanelada,
de lábios arredondados.

Já te fiz de atriz.
amaciei o ego.

Te dei uns quilos
te emagreci.

Eu só preciso de um corpo.
 
Se arrogante.
Se prepotente.
depravada
ou demente,

mau humorada.
Rampeira.
Parideira.

Não importa.
Eu só preciso de um corpo.

MEU CHORO


MEU CHORO

 

CHORAVA MUITO AINDA FETO.

TINHA MEDO DO MUNDO REAL.

DA FALTA DISSO OU DAQUILO.

DO QUE TINHA POR VIR,

E DO LEITE FRACO.

 

DEPOIS CHOREI COM CERTEZA.

COM FORÇA.

QUANDO VI COM TRISTEZA

MEU PEQUENO MUNDO.

 

MEU CHORO SE TORNOU ROTINA

NO FINAL DA NOVELA.

ORA NO MATO, ORA NA ESQUINA

AO APAGAR A VELA.

 

 

MINHA MATURIDADE COMEÇOU

QUANDO PASSEI A CHORAR NO ESCURO,

SEM VER AS LÁGRIMAS.

A FUMAR NO ESCURO ,

ATRÁS DO MURO,

SEM VER A FUMAÇA.

 

O FIM DISSO SO VEIO

QUANDO CHOREI POR AMOR,

SÓ ASSIM MINHAS LÁGRIMAS SECARAM.