segunda-feira, 25 de junho de 2012

MARIA DA PENHA


MARIA DA PENHA


Penha apanha quase todos os dias.


de sandália.
de chicote.
de toalha molhada.


prepara o jantar e leva porrada.
faz café e leva porrada.
faz amor e leva porrada.


Penha não chora.
Não denuncia.
não queixa.
apenas sonha.


Um príncipe virá
por uma dia,
ou por uma noite,


mas pra lhe beijar o corpo.
e amar a alma.
te chamar de gostosa.
te lambuzar inteira.


Só vou entender Penha
no dia em que ela apanhar com gosto,
com razão
Sei porque bato.
Sei porque apanho.


TESTICOCEFALIA

TESTICOCEFALIA 

Minha testilha consistia em descobrir

se meus testículos estavam no cérebro

ou se meu cérebro estava nos testículos.

Era a minha testicocefalia testificada

Eu que sempre fui teso, resoluto

me via com pensamentos mascavados

correndo sêmen nas veias

desavergonhadamente indecente

Queria ver a tarde virar noite e virar dia

me emprestando sem domínio a orgia

em desvarios e cheiro de fêmea

misturando suores e odores.

Nada de amores, nada de apegos

Apenas um artista e seu teatro de alcova

numa mistura de tesão e egoísmo

num dou-o a quem quiser...

Umas tantas usaram do meu corpo

de tal forma a me deixar desfalecido

depois vão embora saciadas

e eu com a certeza do dever cumprido

Os olhos se abrem, o coração dispara

o quarto, o teto, um sorriso sem graça

Confesso que nunca me envergonharam

esses tantos pensamentos meus.

INSÔNIA

INSÔNIA

Minha madrugada quente

Noite de sono ausente

Pensamentos vão e vem

Queria falar com Deus

Desses pensamentos meus

Meu vazio, meu ninguém

Na escuridão tudo se cria

Com requinte

primazia

E discurso preparado





O dia amanhece





Nada de sono, nada de sonhos





Só clareza e lucidez





E um rosto descorado












Nessas madrugadas quentes





Cultua-se o que não sabe.





Quer lugar ao que não cabe.





E poe-se a asneirar.












Era preciso precisar entre o absoluto e o diminuto.





A falta de habilidade.





E o pouco de intimidade.












Deus me devolveu a peça,





Que eu gostaria de ter Lhe pregado.

NOSSOS DESIGUAIS

NOSSOS DESIGUAIS


Não entendo os nossos desiguais.

São desiguais demais.

Ao ponto de não nos reconhecermos.

Baralho sem ás.

Incompatível.

Nem tanto fez, nem tanto faz.

Inteligível.

Sem digitais.

Sem meio termo,

Desprendado.

Lusco-fusco.

Desbotado.

Fenômeno que não explica.

Bocas que não se colam.

Rostos intangíveis.

Corpos que não se enrolam.

Incolor, inodoro.

Porto sem cais.

Foge ao tato, um desajeito.

Assim são nossos desiguais.

SAUDADES

SAUDADES



A saudade mata,

Sem ela não vivo.



Ausência prazerosa

presença agradável,



Riso e choro,

Chuva e sol,



a saudade compensa

um caminhar vazio

e cheio de esperança.



nos envelhece

com rosto de criança.



destrói o indestrutível.



Mora no coração

e escorrega pelos olhos.



passado que não passou.

um sonho que não acabou.



é resto de gente que vai ficando

num caminho de flores.



Desvanece o brilho dos olhos

sem perder a doçura.



Saudade é um frio agasalhado.

anencefalia inteligente.



Liquidificamos pedras

como se fossem maçãs.



Saudade é paradoxo.

Contra-senso.

QUER ABRIR E ENTRAR?


QUER ABRIR E ENTRAR?



QUER ABRIR E ENTRAR?

E SE “VIRAR”?

E SE APAIXONAR?

E SE O AMOR CHEGAR?



ESTÁ PREPARADA PARA A JORNADA?

PRA ENCRUZILHADA?

PARA O TUDO OU NADA?



EU SOU DO BEM COMO NINGÚEM.

DIGO AMÉM SE CONVÊM.

VOU MAIS ALÉM.



VENHA COM CALMA.

CONSULTE A ALMA.



NADA DE GRITO.

NADA DE AGITO.



SEJA VOCÊ, SEJA VERDADE.

FALE DE AMOR , DE LEALDADE.

FALE DE VIDA, CUMPLICIDADE.

COM BOM HUMOR, DOCILIDADE.

MÁGOAS COMPARTILHADAS


MÁGOAS COMPARTILHADAS

Essa tristeza que trago comigo
Não é só minha.


Não veio de outro mundo
Não está arraigada em mim.


A luz apagou
A escureza tomou conta de nós.


Não restou nada
Além dessa tristeza

Corroída, depravada                                                                               .



O cupido tirou a venda.
errou o alvo.

Era pra ser tudo belo.
como um drible.
uma passo de dança.
um soneto de Vinícius.

Alguém,
Em algum lugar,
Também vive triste.
 

Mágoas compartilhadas.

Incompatibilidade.

EU E O MAR


EU E O MAR



Eu e o mar
constrangimento

Eu ali parado.
mudo
Boquiaberto

Ele agitado
sisudo
Incerto

Eu semi-nú
gordurento
varizento.
Nojento.

Ele imponente
onipotente
fluente


Tivesse eu usando sapatos
um fraque
e uma cartola
não teria causado tamanha ressaca.
Arrebentação.


Um meteoro caiu sobre ele.


Que pena de mim!
Morri de pena dele.

A primeira impressão não é que fica.

DEUS E EU POR AÍ


DEUS E EU POR AÍ

DEUS ESTEVE SEMPRE MUITO OCUPADO
QUANDO SE TRATA DE MIM.

FORAM TANTAS AS AGRURAS VIVIDAS
NESSA E EM OUTRAS VIDAS.


ME DEIXOU VIVER ENTRE RATOS E CARRAPATOS
E NEM CUIDOU DOS MEUS ATOS.


AS LINHAS TORTUOSAS COM QUE ESCREVEU MEU DESTINO
PLISSARAM EM MEU ROSTO
E NEM ASSIM PERDI O TINO


DEIXOU-ME DESCALÇO E PEREBENTO
A TODA SORTE, AO RELENTO


PODIA TER ME AMARRADO NUM TOCO
ME DEIXADO LOUCO
INSANO
NÃO HUMANO
ME FEITO BICHO A REVIRAR O LIXO


SE VIVO, FREUD NÃO ME EXPLICARIA
APENAS MUDARIA SUA CAUSA MORTIS


ESTAREMOS NA  ETERNIDADE, DEUS E EU
SEMPRE NOS TESTANDO
E NOS AMANDO
ELE ME PROVANDO
EU FICANDO DE PÉ

MURO DE LAMENTAÇÕES


MURO DE LAMENTAÇÕES

Chegou do nada.

Como quem não quer nada.

E se encostou em mim,

Muro de lamentações.



Pôs se a falar de miséria,

Depressão.

Má distribuição.

Involução.

Lágrimas quentes.

Amargas.

Ardidas.


Era a minha chance.


Cantei uma canção.

Falei de amor que é amor

De amor que não é amor.

Amor que se deleita.

Amor atraente,

Cativante.


Seus olhos brilharam como nunca.

Um brilho esbraseado.

Ruborizado.

Delineado.

Indizível.


Nasceu o novo.

Vitorioso.


Eu ali parado,

Num misto de medo e euforia.

Me curvei respeitosamente,

diante da nova deusa

e deixei que ela se fosse.

Pra ser feliz.

Fiquei a ver navios.

SONHOS DESFEITOS


Sonhos Desfeitos

O sol se escondeu
escureceu
O frio tomou conta de nós.


Tudo gelado
baixou o clima
não consigo ouvir tua voz.


a translação mudou de rota
A rotação virou o vento
Deu a louca no nosso tempo.

Pintos gelados
desmonitorados


O ar poluiu
radioativo

Quem preveria tamanha intempérie?

geleira gelada
geada nevada
neblina condensada


O frio nos consumiu
Sequer nos deixou ver
a parte imersa
do iceberg

Desfez-se os sonhos.

DOM DE ILUDIR


DOM DE ILUDIR


Quando quero conquistar

costumo inventar palavras.

Esmiuço dicionários.

liquidifico verbetes

e saio aureliando por aí.



Infalível.

como rosas ou jóias,

carros importados,

Minhas presas suspiram

ávidas por minhas palavras patenteadas.



Quando meu cheiro se torna único,

e o pensamento se nega

a pensar em outro alguém.

O choro está por vir.

saída estratégica.

está na hora de partir.



conquistar novos rostos.

inventar outras palavras.

Praticar novas conquistas.



Meu dom de iludir.

domingo, 24 de junho de 2012

FERIADO DE ANA LUIZA


FERIADO DE ANA LUIZA
O domingo estava quase acabando
para ceder lugar para uma segunda-feira de feriado
de 15 de novembro

O ano de 1999 estava quase acabando
pra passar a bola para o ano 2000

O século estava quase acabando...

O milênio estava quase acabando...

Políticos aguardavam a festa de aniversário
da República para voltarem às suas bases.

A partir de então
todos os fatos seriam irrelevantes.
Pautas, Atas, projetos, leis,
tudo engavetados.

 Apenas um detalhe  (antes) passou despercebido
Alguém chegaria para roubar a cena

Um médico gente boa

nos primeiros minutos do feriado

realizou a cesárea.

Assim nasceu Ana Luiza.
com exatos 3000 gramas
num corpo de 49 centímetros

Minha criação veio forte, personalidade escorpiana
Trouxe no sangue um desejo quase republicano
de devolver ao povo o poder que dele emana
para que todos o exerça de forma adequada.

 15 de novembro.
O Feriado de Ana Luiza.

O feriado da República perdeu o sentido...

feriado de Ana

A República-Ana




O COMEÇO PELO FIM


O COMEÇO PELO FIM
Quando criança
imaginava o amor como o alfabeto
Queria me apaixonar lá pela letra C ou D.
Quem sabe G.

Amélia
Bromélia

Célia
.
.
.
Gisélia.

Mas esquecia
que tinha nascido ariano
e dragão no horóscopo chinês

 E que é pelo nariz que o fogo sai
Privilégio de alguns.

Zélia
era uma putinha muito safada
e andar de cobra mal matada.

A mais linda que já apareceu naquelas redondezas.

E lá se vão anos de saudades.
Que doce começar de lá pra cá.

EMPOBRECIMENTO ILÍCITO


Empobrecimento Ilícito

Quando adolescente
Eu era rico.

Tinha uma pequena propriedade
de vinte e poucos metros quadrados
no fundo da minha casa.

Era um paraíso.

Tinha pé de jurubeba
Sálvia
Losna
Boldo do chile


Só a vida não era amarga.

E do lado esquerdo pra quem entra
Tinha uma criação de formigas.


Eram alimentadas com cutículas
Casca de ferida
Esperma 


Perdi tudo.

Empobrecimento ilícito.

PRA QUE EU POSSA RENASCER


PRA QUE EU POSSA RENASCER

Sugue a minha alma.
traga de volta meu trauma.
acabe com a minha alegria.

Vampirize minha energia.



amarre as minhas veias.

me envolva em suas teias.

esgote o meu suor.

sua ira eu sei de cor.


Me faça voltar ao pó.
No meu cérebro dê um nó.

cuspa na minha comida.

bote o dedo na ferida


Minha Carrasca, Algoz.

Silencie a minha voz.

Me deite na alfineteira.

Seja minha bebedeira.

Abra funda a minha cova.
Acabe com a minha trova.

Arranque meu intestino

Me transforme num equino.


Depois me leve pra cama.
Me beije, Diz que me ama.

Dê o seu bom para este ser.

pra que eu possa renascer...

FIM


FIM

 Secou o perfume
Veio a lume
Virou negrume
Perdeu volume

 Formou-se um asco
Caiu do penhasco
Quebrou o frasco
Foi só fiasco


Um frio intenso
Vazio imenso
 sem consenso
Tornou-se denso


Pobre menino
Antes ladino
Um bailarino
Perdeu o tino


O comprazido
Que faz sentido
Foi distorcido
Pelo cupido


Ficou um vazio
Se destruiu
Perdeu o brio
Curva de rio


A Minha amada
Arraigada
quase sagrada
Foi sepultada.